Continuidade do eu
- Weyni

- 30 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de jan.


"Quando o ambiente primário não é previsível e emocionalmente seguro a criança aprende a sobreviver buscando em outro lugar a falta interna." Um ano novo está próximo e tenho muito a refletir sobre este ano e os anteriores da minha vida. Fazia tempo que algo não perturbava meu sono, então estou aqui, escrevendo as 2 da manhã.
Depois de um longo período eu finalmente sai do modo de sobrevivência para habitar meu próprio corpo, me tornando a adulta que me faltou; foi um processo silencioso entender minha própria narrativa, pois tive que olhar para trás sem me perder.
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Eu estava olhando minhas fotos da galeria, fotos desde que eu era muito nova, fui atravessando todas as histórias da minha vida, revivi diversos momentos com aquela luz clara do celular brilhando no meu rosto na madrugada. Depois de uma hora revivendo alguns momentos eu me deparo com uma específica que me fez chorar, era uma foto (de uma foto impressa) que ficava na minha escrivaninha, junto de uma carta que havia recebido; ah, essa imagem conseguiu me fazer conectar todos os pontos que estavam faltando na minha história, aquele tipo de pergunta incessante que sempre me perturbava "por que eu sou assim?" "por que eu fiz isso?" e naquele momento chorei, não de saudades, mas por mim, pelo o quão abalada eu estava naquele momento e nem sabia.

Tarde da noite, chorando assim, sozinha, minha mente encontrou algo que estava guardado a anos, a menina dentro de mim esperando ser reconhecida; pela primeira vez em 18 anos eu me percebi como pessoa, não estou apenas tentando sobreviver. Nesse tempo eu estava em um processo de estranhamento comigo mesma, desesperada para diminuir a ansiedade; silenciar pensamentos, sentindo sempre vazio e dor, me entorpecendo devido a falta de símbolo e palavras para atravessar esse sofrimento emocional, sentia como se eu precisasse me adaptar para aguentar a vida, para não desmoronar, me regulando pelo outro, buscando anestesia, controlando meu corpo, sempre muito sensível, e nunca sozinha, meu corpo vivia em alerta.
Estou em um processo interno de amadurecimento, mas toda a minha imaturidade me perturbou durante muito tempo, por isso vivia anestesiada, porém, esse sistema não é mais necessário, agora estou conseguindo finalizar esse ciclo me tornando minha própria casa...

Durante muito tempo eu não consegui perceber que estava sofrendo, mas agora que estou cuidando do meu corpo sem puni-lo, investindo meu tempo em coisas que me façam crescer (como idiomas e músicas), trocando a fuga de finais de semana por rotina, fazendo exercício físico, passando semanas sem álcool, isso tudo é gigante para mim, perceber que não sou mais frágil, que fazer todo dia coisas por mim está criando a base que eu precisava.
Eu sai de um estado de embotamento emocional, passei a sentir meu corpo no tempo, passei a reconhecer a causa-efeito nas minhas ações. Nesse processo eu também acabei machucando pessoas, sei que não define quem eu sou, mas sim quem eu era tentando sobreviver.
Sobreviver é estar em constante anestesia, já viver é sentir, escolher e cuidar.
Eu vivi o suficiente para errar, para me perder, me machucar, ser machucada e sobreviver a isso; percebi que não preciso mais me ~dissolver~ para continuar viva, porque agora eu estou internamente organizada, não precisei me tornar outra pessoa, apenas inteira.
Preciso respeitar o cansaço também, pois corpos que aprenderam a sobreviver durante tanto tempo demoram a confiar que podem descansar; então para esse novo ano eu vou continuar me cuidando, me ouvindo, me respeitando, crescendo e aprendendo um pouco mais todos os dias, aprendendo uma nova palavra, um novo movimento, novos conteúdos, uma nova forma de pensar, de enxergar, e com novos caminhos para seguir.

Todo dia é um novo dia para fazer novas escolhas e aprender com nossas experiências. Agora consegui me tornar a adulta responsável por mim mesma; com a auto-reparentalização, estou aprendendo que posso suprir todas as minhas necessidades que não foram atendidas na infância, todo carinho, atenção e cuidado que eu sempre precisei.
Essa virada de ano passarei sozinha com o Tibi, uma escolha consciente, para tornar esse momento tão especial em um momento de introspeção e autocuidado. Vou pensar com carinho sobre esse ano para planejar novos objetivos para minha vida <3

O movimento de translação (percurso que a Terra (e outros planetas) faz ao redor do Sol) é realizado em aproximadamente 365 dias, 5 horas e 48 minutos.
Eu vivi aproximadamente 6726 dias, até que hoje eu pude fazer o meu movimento de mudança e construir esse texto.
Obrigada ao universo, a interconexão de todas as coisas, a toda totalidade, ao cosmos, a harmonia universal, a natureza, a vida, e a energia pela possibilidade de estar aqui hoje, em um momento de reconhecimento da minha existência, do planeta, do meu corpo, das experiências e das oportunidades.


Happy New Year!





Obrigada por ler!

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